0
Após a chacina da Messejana/Curió, em novembro do ano passado, um sentimento se multiplicou em bairros vulneráveis de Fortaleza e da Região Metropolitana. Nas áreas dominadas pelo tráfico de drogas, territórios sempre em confronto com as polícias ou geradores de relações suspeitas entre criminosos e policiais corruptos, uma “ordem geral” teria levado quadrilhas inimigas a se juntarem ou estabelecerem uma trégua em nome da “paz” e pelos negócios dos traficantes. Nada de execuções entre eles (a não ser que se quebre o acordo), nada de assaltos a cidadãos dali e liberdade para que a população circule sem “medo” na comunidade.

Essa história, ainda em construção, é difusa. Inicialmente, segundo fontes que pedem o anonimato, foi tramada na interlocução do “presídio com a favela” e, agora, vem tomando corpo e reverberando na Cidade. O POVO inicia uma conversa sobre a “pacificação entre facções”, estratégia que vem sendo ignorada (ou investigada sem muita ênfase) pela Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) e órgãos afins do Governo.

Correu pelas redes sociais. Foi logo após os 11 assassinatos cometidos, supostamente, por policiais militares em 12/11/2015. Um comunicado apócrifo, com referência à matança do Curió e outros episódios, rodou por Facebook e WhatsApp de lideranças comunitárias, de criminosos e grupos de policiais.

Num imenso texto, após denúncias, lamúrias e ameaças contra os sistemas de segurança pública e penitenciário, alguém ou algum grupo que ostenta o título de “O crime do Estado do Ceará” define que a saída nos bairros - supostamente apoiados pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) -é estabelecer “uma paz onde todos possam ser unidos. Onde a comunidade possa interagir com outra comunidade. Uma paz onde todos possam exercer o seu direito de ir e vir”.

Não demorou e a informação sobre a aproximação de gangues rivais, acompanhada de foguetórios após os supostos acordos, virou preocupação no WhatsApp de policiais cearenses. “Olha a ousadia desses bandidos, eles comemoram a união de facções criminosas nos bairros Bela Vista, Panamericano, favela do Papoco, Riacho Doce, Malvinas e Triângulo, em Fortaleza. As imagens estão circulando nas redes sociais e sob investigação”, está escrito num grupo de policiais que O POVO opta não nominar.

Em outra postagem, na zona Leste de Fortaleza, alguém comemora. “Tamo junto bairro Vicente Pinzon e comunidades Piniquim, Favelinha, Buraco, Marrocos, Conjunto, Pé do Morro, Beco do 12. Todo o Castelo Encantado lutando pela paz. Parar com esse derramamento de sangue que não leva ninguém a nada. Só destruição (...) Concordância geral, comunidade. Porque os cidadãos de bem possam viver tranquilo, na porta de suas casas. Poder andar livre por todo canto do bairro (...) do Vicente Pinzon. A paz veio pra ficar e ela não vai mais sair do bairro”, está numa das postagens.

Em outra rede social, um rapaz festeja “a paz que reina no Castelo + Serviluz + Lagoa do Coração + Verdes Mares + As Placas + Caça&Pesca + Santa Teresinha + Saporé + Varjota + Os Índios + Lagamar (...) Acabô a treta, acabô a rivalidade. Chega de matansa. Chega de ver mãezinha chorando. Unidos somos mais fortes”, avisa, na sua contagem.

Para um policial, que pede para não ser identificado, as histórias apenas aparentam ser isoladas. Como não há investigação coordenada, ligando as pontas “dessa artimanha criminosa”, o poder dos traficantes nos bairros se modifica. “Pode parecer ousadia de pirangueiros, mas é estranho o efeito dominó e precisamos nos antecipar a essa nova lógica”, observa.

O ponto de partida, pontua um oficial da Polícia Militar, é admitir que eles (o tráfico) estão se reorganizando. Dois: é saber de onde partiu a ‘nova ordem’. E três, o Estado não pode sair atrás e perder mais espaço nos bairros onde “a lei é reescrita por traficantes”.

Fonte: O Povo

Postar um comentário

 
Top