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Parlamentares apontam não ser possível definir algumas posições das igrejas, porque elas são espaços de divergências



Católicos e protestantes ainda representam ampla maioria no Brasil, um país predominantemente cristão, mas marcado pela diversidade de crenças. Nas casas legislativas, bancadas religiosas têm sido protagonistas de discursos que atacam, principalmente, pautas que elas entendem relacionadas à moral. Diante da crise política atual, igrejas não têm passado incólume a discussões sobre o futuro do País.

>Tendência é de ampliação do discurso conservador

Se por um lado tem vindo a público uma avalanche de discursos conservadores advindos de igrejas católicas e evangélicas, parlamentares que se intitulam religiosos ponderam que há vozes dissonantes naquelas instituições. Debates sobre posturas de esquerda e direita, por exemplo, ainda entram em conflito no seio dos templos religiosos.

O deputado Carlos Matos (PSDB), da comunidade católica Shalom, explica que a Igreja Católica prefere não se posicionar sobre alguns assuntos espinhosos da política. Questionado sobre declarações de membros da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) acerca do processo de impeachment em curso contra a presidente Dilma Rousseff, o tucano diz que não chegou a tomar conhecimento de nenhum desses posicionamentos. Em dezembro, A Comissão Brasileira Justiça e Paz, da CNBB, declarou "imensa apreensão" acerca do pedido de impedimento contra Dilma.

Indagado sobre como se dá a convivência de setores da Igreja Católica que, historicamente, militam em movimentos de esquerda, como a Teologia da Libertação e das pastorais, com alas mais conservadoras, Matos lamenta que, segundo ele, "o marxismo acabou entrando em algumas bases da igreja". E completa: "o PT nasceu na igreja, porque havia sensibilidade eleitoral, mas os frutos não foram bons. É difícil, porque, quando parte para o partido, não cabe à igreja se posicionar. Os fiéis leigos são chamados a ter participação. O mundo vive em uma ditadura do relativismo".

Progressista
O deputado Elmano de Freitas (PT), frequentador da Igreja Católica, nega que a instituição seja espaço apenas de opiniões conservadoras e diz que há lugar para ideologias de esquerda. "Não considero que a formação ideológica da Igreja Católica faça dela uma igreja conservadora. Ao contrário (...) A igreja católica é muito progressista, a sua formulação social. É uma igreja que diz claramente que a sociedade não deve se movimentar pelo lucro, e sim tendo as pessoas como centro da vida social".

O petista reconhece que o maior foco de divergências entre setores conservadores e progressistas se refere ao "aspecto comportamental", a exemplo das políticas públicas formuladas para o grupo LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais). "Há uma formulação na igreja do que é considerado na família sagrada e há, na sociedade moderna de hoje, outras configurações familiares. É evidente que a igreja está debatendo a partir do ensino da família, a igreja vai manter sua compreensão da família heterossexual como a sua referência, mas ela está sendo chamada a debater como vai se relacionar com essas outras realidades que a sociedade construiu", ressalta.

Ainda sobre o tema, Elmano diz que a instituição tem evitado se posicionar. "Quando trata da questão homossexual, ela diz, oficialmente, que não consegue explicar a razão de sua existência. Ela não diz, como alguns, que é doença ou desvio. Tem essa humildade, porque entende que a questão humana está para além da nossa compreensão", relata. "A posição da Igreja Católica não é nem para um lado nem para outro. É a posição de pessoas muito equilibradas, que têm muita experiência no povo brasileiro", complementa.
A deputada estadual Silvana Oliveira (PMDB), da Assembleia de Deus, afirma que as discussões políticas têm chegado aos cultos principalmente por uma demanda dos jovens, que estão mais interessados em discutir a situação política do Pais, assegura. "As pessoas têm participado, se mobilizado a partir da Ordem de Ministros Evangélicos do Estado. Eles utilizam a nossa representação para estar mais perto do poder público", ressalta, citando que tem ouvido na igreja muitos gritos de "Fora Dilma", em relação à presidente da República, e "Fora Cunha", contra o presidente da Câmara Federal.

Audiência

Na tarde de ontem, foi realizada audiência pública na Assembleia Legislativa, a pedido de Silvana Oliveira, para discutir as emendas ao Plano Estadual de Educação. O principal impasse para a aprovação do documento é o ataque de integrantes das bancadas religiosas aos termos 'LGBT' e 'gênero', citados no plano em referência ao combate aos preconceitos nas escolas. O relator do plano, Elmano de Freitas, tenta costurar consenso.

O vereador de Niterói (RJ) Henrique Vieira (PSOL), pastor da Igreja Batista do Caminho, é uma voz na contramão ao coro da maior parte da bancada religiosa. Historiador e teólogo, ele esclarece que a igreja da qual faz parte se coloca como "horizontal e democrática" e defende a "perspectiva ecumênica". "Somos cristãos, evangélicos, mas entendemos a importância do diálogo ecumênico, do Estado laico e do respeito à diversidade. Como cristãos, sabemos que religiões que mais sofrem são as de origem negra, umbanda e candomblé, porque há muito racismo".

Henrique Vieira salienta ser contra a projeção de grandes lideranças das igrejas evangélicas que carregam "rebanhos". "Historicamente, somos um campo contrário ao Edir Macedo, Malafaia, Feliciano. Dialogamos com a Teologia da Libertação (da Igreja Católica). Não se trata de denunciar as pessoas, elas têm sua fé, sua mística por Deus. Não foco nas pessoas, mas nas lideranças que me envergonham e que apresentam uma visão de um deus bélico", justifica.

Diário do Nordeste

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