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Foram vinte e quatro anos lutando pelo direito de existir e ser Hérica Izidoro. Na madrugada do dia 12 de fevereiro, a travesti foi espancada com requintes de crueldade por preconceito e jogada de uma passarela na Avenida José Bastos, em Fortaleza, Ceará. Foram 60 dias lutando pela sobrevivência, até que morreu no dia 13 de abril no Instituto José Frota.

Seus assassinos ainda estão soltos, ninguém responde pelo crime e investigação ainda não aponta para a solução do caso – que não conta com filmagens, testemunhas ou fotos. O 3ºDP (Otávio Bonfim), da Policia Civil, justifica que não dá informações para não comprometer as investigações. A família aposta no descaso.

O crime ocorreu após voltar de uma festa de pré-Carnaval na cidade, que foi com amigas e voltou sozinha. Nem mesmo em uma festa que na teoria as liberdades individuais passam longe dos moralismos e reprovações, foi seguro para ela retornar com vida.

Ninguém deu a notícia para a família. Foi a mãe Vânia Castro e a irmãPatricia Castro de Oliveira que sentiram a falta desde a festa e que decidiram na terça-feira peregrinar por hospitais e espaços frequentados por Hérica. No hospital Instituto Frota, encontraram-na. Estava marcada e já sentenciada pela agressão. Vítima de traumatismo craniano. Com perda de massa encefálica. Em coma.

Choro, revolta e ânsia por justiça. Na volta para casa, Patricia foi a um bar de esquina da rua que ocorreu a agressão e perguntou o que ocorreu. Um rapaz em um tom muito debochado disse que “Uma travesti apanhou ‘até dizer chega’. Eu respondi que era minha irmã e que ele não sabia o que era a dor da família”. Três dias depois, outra travesti era agredida – e morta – em Fortaleza,Dandara dos Santos. Pouco depois, foi a vez de Paulette de Andrade.

ERA UMA PESSOA ALEGRE

Desde criança, Hérica demonstrava gostar de tudo o que era atribuído ao universo feminino. A irmã conta que acredita que ela já “nasceu assim” e, quando eram pequenas, brincavam juntas de bonecas e que Hérica adorava se maquiar. Tudo o que era ligado ao gênero feminino ela estava junto.

Aos 15 anos, revelou para o mundo: “Sou travesti e me chamo Hérica”. O nome e a identidade de gênero não foram assimilados pela família – que ainda hoje, após a morte, chamam pelo nome de registro e no masculino – mas não diminuiu o carinho e nem as portas abertas. Coisa que discursos políticos, convivência e sentimentos misturados não podem explicar.



Tanto que Hérica continuava morando com a mãe com a mãe em um duplex e, no andar de baixo, moram a irmã, o enteado e as duas sobrinhas. Ela era uma pessoa alegre, boa, feliz, inteligente, debochada. Era uma pessoa normal”, declarou a irmã, ressaltando que ela tinha um excelente contato mesmo era com a mãe.

Embora alguns jornais tenham dito que ela trabalhava em uma lanchonete, Hérica enfrentava dificuldades de se inserir no mercado formal de trabalho e atuava como profissional do sexo (informação da irmã). Aliás, com parte da família está desempregada, ela era quem ajudava financeiramente com as despesas das duas casas. Uma verdadeira batalhadora.

Segundo Patricia, Hérica estava muito feliz nos últimos anos, sobretudo porque estava conseguindo fazer as transformações no corpo que tanto queria. Já havia conseguido colocar silicone nos seios e há três anos também estava com um no bumbum. Nas redes sociais, ela demonstrava ser bastante vaidosa ao publicar fotos em que valorizaram os atributos conquistados.

NÃO FOI A PRIMEIRA AGRESSÃO

No país que mais mata travestis e transexuais no mundo, ela já havia sofrido violações e agressões anteriormente. Antes do espancamento, ela havia sido o alvo de três tiros, conta a irmã. Apesar da tentativa de homicídio, ela sobreviveu e continuou resistindo.

“A gente nem pensava que existia esse tipo de coisa (transfobia), porque independente de qualquer coisa é um ser humano que está ali. Ficamos chocados, tristes e revoltados com tanta frieza de fazerem isso”, declara.

Nem mesmo um Boletim de Ocorrência sobre a agressão foi realizado com facilidade. E a família precisou da ajuda do Centro de Referência LGBT para que o boletim fosse realizado. A advogada Roberta Lima acompanhou os familiares e solicitou investigação, salientando a dificuldade de encontrar testemunhas. O caso também vem sendo acompanhado pela Coordenadoria de Políticas para Diversidade Sexual, por meio do Centro de Referência LGBT Janaína Dutra.

Enquanto ninguém é preso, começam a surgir boatos. “Além de tudo o que estava ocorrendo, a gente viu a mídia noticiar que ela morreu porque estava devendo para cafetina. Não existe isso. Isso é mentira. Ela não estava devendo nada para ninguém”, declara a irmã, ressaltando que é uma maneira de minimizar o caso e justificar o injustificável: o assassinato de uma pessoa.



A DOR DE QUEM FICA

Há quem leia uma notícia envolvendo uma travesti, faça julgamentos, mas não pense na família ou nos amigos que ficaram. Mais saiba: desde que a filha foi espancada em fevereiro, a mãe de Hérica chora. Primeiro, ao saber da agressão sofrida pelo preconceito, do estado em que ficou a filha, das sequelas que poderiam ocorrer caso sobrevivesse e, por fim, da morte após 60 dias de luta.

O velório de Hérica ocorreu no dia 13 de abril na Igreja Nossa Senhora da Salete, no Bairro Bela Vista. Foi quando a mãe desabafou: “Por que tanto preconceito? Por que tanta raiva dos outros? Se as pessoas não se aceitam como são o problema é delas. Mas ela se aceitava e era feliz do jeito que ela era”, disse ela, que trajava a camiseta “Força Hérica”. Todos se emocionaram.

Durante o período em que ficou internada, Hérica não falou, não andou e não se movimentou. Às vezes, abria os olhos. Uma cuidadora, que recebia R$70 para ficar com ela em revezamento com a família, disse que no último contato com vida Hérica teve um gesto que a emocionou. Uma lágrima caiu, após ela dizer que todos a amavam muito.

Na última semana, o quadro clínico dela se agravou, ela teve uma parada cardíaca e faleceu durante a madrugada. Mas o que significava aquela lágrima de Hérica? Tanta coisa, né...
Fonte NLU.COM
Por Neto Lucon

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